Cinema

O Futurismo de “Her”: Uma Lição de Arquitetura, Interiores e Direção de Arte

Analisamos a arquitetura urbana e os interiores do filme Her. Descubra como a mistura de Los Angeles e Xangai criou um futuro acolhedor, humano e melancólico.

O Futurismo de "Her": Uma Lição de Arquitetura, Interiores e Direção de Arte

Quando pensamos no futuro das nossas cidades, a ficção científica quase sempre nos entrega cenários distópicos, frios, sombrios e dominados pelo metal escuro e pelo neon agressivo (como em Blade Runner). No entanto, o filme “Her” (Ela), dirigido por Spike Jonze, traçou um caminho completamente oposto, construindo uma visão de futuro íntima, suave e profundamente emocional.

A produção reimaginou o espaço urbano e o design de interiores para criar uma narrativa onde a tecnologia não é uma barreira mecânica, mas sim uma extensão invisível dos sentimentos humanos. Abaixo, destrinchamos tecnicamente como a arquitetura do filme foi desenhada.

O Híbrido Urbano: Los Angeles encontra Xangai

Para construir a metrópole do filme, a equipe de direção de arte não utilizou apenas computação gráfica; eles criaram um híbrido físico e geográfico. A base da paisagem urbana californiana de Los Angeles foi combinada com os distritos ultra-verticais, passarelas elevadas e densidade de Xangai, na China.

O resultado é uma cidade altamente verticalizada, mas limpa e sem agressividade. O urbanismo de Her prioriza as curvas, o tráfego de pedestres em níveis elevados (isolados dos carros) e o silêncio visual, transformando a metrópole em um organismo confortável, porém sutilmente melancólico.

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O Apartamento de Theodore: Isolamento nas Alturas

O apartamento do protagonista, Theodore Twombly, resume perfeitamente o conceito de “solidão confortável”. Localizado no topo de uma torre residencial, o imóvel possui imensos panos de vidro que cobrem as paredes do teto ao chão.

  • Efeito de Flutuação: A intenção do desenho de produção era fazer com que Theodore parecesse estar “flutuando” sobre a imensidão de luzes da cidade. Há uma exposição total à densidade urbana, mas o minimalismo do espaço impede qualquer sensação de claustrofobia.
  • Materiais que Curam: Em vez de superfícies espelhadas, plásticos ou metais polidos comuns no gênero de ficção, o apartamento é composto por madeira clara, tecidos macios texturizados e divisórias de vidro fosco que difundem a iluminação de forma suave.

A Paleta de Cores: O Banimento do Azul Tecnológico

Uma das decisões técnicas mais radicais da direção de arte de Her foi a eliminação quase completa da cor azul e de tons puramente frios dos cenários e figurinos. O azul, historicamente associado à tecnologia e à frieza computacional, deu lugar a uma paleta estritamente quente e analógica.

Os ambientes e as roupas transitam por tons de vermelho, melancia, tangerina, mostarda, bege e marrom terroso. Essa escolha cromática injeta calor orgânico na relação de Theodore com o sistema operacional Samantha, tornando o ambiente artificial acolhedor e seguro ao toque e ao olhar.

Raio-X Técnico: O Design como Narrativa Emocional

Elemento de Design Escolha de Produção em “Her” Objetivo Psicológico na Cena
Arquitetura Externa Prédios curvos, ausência de carros visíveis, passarelas de pedestres. Transmitir um futuro limpo, organizado e focado no bem-estar comunitário.
Mobiliário Peças minimalistas de meados do século (Mid-century), linhas limpas e madeira natural. Ancorar o ambiente no conforto tátil e afetivo, afastando a estética de laboratório.
Iluminação Interna Luz difusa, luminárias lineares suaves e o aproveitamento do “Golden Hour” (pôr do sol). Evidenciar a melancolia, o silêncio e o estado introspectivo dos personagens.

A arquitetura e o design em Her funcionam quase como um personagem ativo na história. Ao criar um futuro que é esteticamente impecável e funcional, mas incapaz de preencher os vazios da alma humana, Spike Jonze provou que o verdadeiro desafio do design do amanhã não é a evolução dos nossos softwares, mas a preservação da nossa capacidade de conexão e afeto. O filme continua sendo a maior inspiração para os arquitetos que buscam projetar espaços focados na psicologia do morador.

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